A Travessia.

(Nonato Barakah)

Eu queria seguir… seguir em frente,

sem medo, sem ânsia, sem o sobressalto

que me inquieta a alma…

Atracar meu barco à beira-mar,

tocar os pés na areia,

reencontrar em mim a delicadeza de sorrir…

Queria sentir a segurança do vento

que, ao longo do caminho, embalava meu barco,

mesmo quando as águas me traziam incertezas…

Olhar para trás,

orgulhar-me da travessia,

erguer os olhos

e sentir-me em casa novamente.

Mas meu barco permanece ancorado,

imóvel, à beira-mar…

E uma tristeza silenciosa

pesa sobre tudo o que não consigo expressar.

O horizonte distante me intimida,

parece afastar-se a cada olhar,

e a vertigem da viagem

se anuncia antes mesmo da partida…

Medo, ansiedade,

um vazio que não sei nomear…

No peito, a urgência de seguir;

nos gestos, o receio de partir.

Contemplo o barco,

o mar,

o horizonte…

E nada…

nada da travessia.